sábado, 6 de dezembro de 2014

Flor da mata: poesia indígena




“Ô caboclo lindo
Que anda fazendo aqui?
Eu ando por terra alheia
Procurando por minha ciência.”
(Canto Kariri-Xocó)

          À luz do canto Kariri, nem é preciso dizer que o cantar acompanhado de um pisar forte ao som das maracas faz do toré uma ciência. Essa manifestação sagrada está no ser e no viver dos indígenas da Região Nordeste. Sua poesia vem dos ancestrais e se alastra como um bem precioso na mente e no coração dos Filhos da Terra; uma ciência que dá resistência, mesmo quando o ser indígena se vê meio deslocado em terra alheia.
          Entre os Xukuru de Ororubá (Pesqueira/PE), por exemplo, o toré ganhou novos significados a partir da liderança do Cacique “Xicão”; novos significados ou um toque mais moderno que algumas mulheres do povo Xukuru revelam ao enfeitar os seus trajes e adereços com flores, de maneira que isso não as impede de usar vestimentas feitas da palha de milho, da palha de coco e das penas de aves; pois este é um costume que vem dos antepassados.
          Minha intuição diz que a flor - entre os adereços agora presentes no toré - sugere ao mesmo tempo a leveza e a força que vem da Mãe-Terra; leveza e força que o “haijin” (fazedor de haikai) também necessita parao haikai acontecer. Pensando assim, espero que este livro seja também veículo de comunicação entre os amantes da poesia, pois enquanto houver poesia existirá comunicação entre os “encantados” e os participantes do Toré.
          O segundo motivo que me levou a escrever esta pequena apresentação remete à boa lembrança que eu guardo do ensaísta Antonio Fernando Viana, do qual fui aluna na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde ele ministrou Literatura Comparada nos Cursos de Pós- Graduação em Letras. Recordo das muitas vezes em que ele me convidou a participar dos encontros e/ou caravanas literárias que ele organizou junto ao Núcleo de Programas Educacionais e Culturais (NUPEC/UFPE). Sendo assim, ao abrigo das boas palavras de Antonio Viana, tomo a liberdade de transcrever, aqui, um fragmento da resenha que ele fez acerca do meu livro “Canto Mestizo” (1999); essa resenha consta dos Anais do “I Encontro de Cultura Nordestina: do aboiar do vaqueiro à cadência do frevo”, realizado em 2000, na FABEJA, em Belo Jardim (PE).
         Faz alguns anos que Antonio Viana nos deixou, mas a saudade fica de tal forma que as suas palavras dão mostra do ser sensível que compartilhou a riqueza de sua alma para aproximar os possíveis leitores dos meus quase haicais. Que assim seja e com a palavra, Antonio:

[..] Tentarei expressar nestas palavras minha surpresa e meu encanto ao descobrir a poesia de Graça Graúna [...] vemos a autora mostrando- se como um haijin (poeta de haicai), unindo simplicidade, sensibilidade e sabedoria, em poemetos concisos, em três versos, como o faziam os antigos haicaístas. Fiel à estética e aos princípios desta forma poética, a autora cristaliza a instantaneidade do momento, a transitoriedade do sentimento, assim como a fugacidade do tempo através de imagens do dia, palavras, cores e sons do cotidiano, da maneira mais simples possível, como deve realmente ser um belo e autentico haicai. Aqui captamos toda a emoção, a sensação e o sentimento da poetisa apresentados como uma espécie de convite a um diálogo e encontro maior com a sua poesia [...] (VIANA, 2000, p. 85-86).

Nordeste do Brasil, abril de 2014 
Graça Graúna




GRAÚNA, Graça. Flor da mata. Belo Horizonte: Penninha Edições,  2014.
ISBN: 978-85-67265-08-7

1. Poesia brasileira. 2. Poesia indígena.
Ilustração: Carmen Barbi
Capa: Letícia Santana Gomes

Contato: teardapalavra@gmail.com

2 comentários:

Márcia Mura disse...

Ganhei de presente esse livro da autora amei. Vou citeu na minha tese. No primeiro encontro com Graça Graúna me identifiquei com seu espírito. Saudades, assina marcia mura.

Graça Grauna disse...

Márcia MURA, querida parente: sua história é linda e deve ser contada sempre. É importante que todos saibam o quanto lutamos para termos direito ao nosso lugar no mundo. Saiba que me identifico muito com você. Nossas historias são muito parecidas. Sua experiência de vida é magnifica. Muito obrgada pelo carinho e atenção aos meus escritos. Que Nhanderu nos acolha,
Graça Graúna