segunda-feira, 20 de março de 2017

Defesa do povo Xukuru na Corte Interamericana de Direitos Humanos

As violações de direitos Humanos ao Povo Xukuru serão julgadas na Corte Interamericana de Direitos Humanos

 Imagem: unicap.br





Luis Emmanuel Barbosa Cunha[1]
Manoel Severino Moraes de Almeida[2]


O Povo Xukuru será ouvido na Corte Interamericana de Direitos Humanos. No período de sessões da Corte, de 10 a 28 de março de 2017, um dos casos mais emblemáticos de violação coletiva de Direitos Humanos ocorrido no Brasil finalmente dará um passo decisivo em busca de uma sentença de mérito favorável à luta indígena no Brasil e nas Américas.
O caso Xukuru chegou ao Sistema Interamericano de Direitos Humanos, a partir da Comissão Interamericana de Direitos Humanos em 2002, marcado por alto grau de violência física, étnica, moral e simbólica contra os indígenas realizado pelo Estado brasileiro em seus atos comissivos e omissivos em não completar o processo de demarcação com a posse tranquila pelos indígenas de suas terras ancestrais. Com efeito, o Povo Indígena Xukuru aguarda há tempos a demarcação de suas terras, inicialmente prometida pelo Império brasileiro, desde que os xukurus participassem da Guerra do Paraguaia em favor do Brasil. A promessa do Império não foi cumprida, bem como permanece inadimplente a República em seu Estado Democrático de Direito.
Desde o início formal do processo administrativo de demarcação, há 29 anos, ainda existem não índios intrusados na terra, além de grandes perdas pessoais: o assassinato do grande líder Cacique Xicão, que liderou a ação proativa dos Xukurus na retomada de suas terras ancestrais, de Chico Quelé e de Geraldo Rolim, por exemplo. A tentativa de assassinato do Cacique Marquinhos também foi um momento de tensão. Hoje ele e Dona Zenilda, sua mãe, vivem ainda sob a proteção do Programa Estadual de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos.
Desde já, todo nosso apoio e solidariedade ao Povo Xukuru e aos peticionários: Justiça Global, CIMI, GAJOP e Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), que têm feito um grande trabalho desde a primeira petição de mérito e cautelares junto à CIDH lá em 2002. Nesse caso emblemático, não está em jogo apenas o debate sobre o direito de propriedade, está também em jogo o respeito a um projeto de vida coletivo, extremamente importante para preservação de matas, das águas, das sementes caboclas e de uma cultura, enfim, para uma vida humana em pleno equilíbrio com a natureza; está em jogo o direito à vida e à integridade física; está em jogo o direito à autodeterminação dos povos e a liberdade de se expressar como lhe convém; está em jogo o reconhecimento dos Direitos Humanos como um fenômeno vivo e interdependente.


[1] Doutorando na pós-graduação em Direito pela UFPE

[2] Ex-membro da Comissão Estadual da Memória e Verdade Dom Helder Câmara de Pernambuco

quarta-feira, 8 de março de 2017

Retratos (8 de março)

Site: Yandê (Rádio indígena)


Retratos
Autora: Graça Graúna

Saúdo as minhas irmãs
de suor papel e tinta

fiandeiras
guardiãs
ao tecer o embalo
da rede rubra ou lilás
no mar da palavra
escrita voraz.

Saúdo as minhas irmãs
de suor papel e tinta
fiandeiras
tecelãs
retratos do que sonhamos
retratos do de que plantamos
no tempo em que a nossa voz
era só silêncio


Graça Graúna. Retratos. In: Antologia retratos (Org. Elizabeth Siqueira, Edições Bagaço, Recife/PE, 2004)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil

GRAÚNA, G. Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil. Belo Horizonte: Mazza, 2013.  




Maurício Silva
(Universidade Nove de Julho,
Avenida Francisco Matarazzo, 612, 05001-000,
São Paulo, São Paulo, Brasil).
E-mail: maurisil@gmail.com

Deve parecer, ‘no mínimo’, curioso a muitos leitores um livro que trata da produção literária indígena no Brasil, já que, para muitos interessados na expressão literária nacional - mesmo aqueles especialistas em crítica e historiografia literárias -, a existência de uma literatura indígena brasileira deve soar como algo, ‘no máximo’, hipotético. Isso pode ser tanto mais estranho, ao pensarmos não apenas numa literatura brasileira indígena, mas ainda numa literatura ‘contemporânea’ e que pode ser discutida na perspectiva de seus ‘contrapontos’...
É exatamente isso que faz a pesquisadora e professora universitária de origem indígena Graça Graúna, em seu mais recente livro: “Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil” (GRAÚNA, 2013).
A autora começa definindo a literatura indígena contemporânea nos seguintes termos:
[...] a literatura indígena contemporânea é um lugar utópico (de sobrevivência), uma variante do épico tecido pela oralidade; um lugar de confluência de vozes silenciadas e exiladas (escritas), ao longo dos mais de 500 anos de colonização. Enraizada nas origens, a literatura indígena contemporânea vem se preservando na auto-história de seus autores e autoras e na recepção de um público-leitor diferenciado, isto é, uma minoria que semeia outras leituras possíveis no universo de poemas e prosas autóctones (GRAÚNA, 2013, p. 15). 

Desse modo, a autora se propõe a estudar um conjunto de obras de autores da literatura indígena contemporânea de língua portuguesa, com base nos estudos culturais, propondo uma ‘leitura das diferenças’. Assim, sua abordagem não apenas confronta a atual produção literária indígena no Brasil com a produção não indígena, mas também busca discutir a relação daquela com conceitos como os de identidade, auto-história, deslocamento, alteridade e outros, numa perspectiva que se assenta na ‘transversalidade’.
Para Graça Graúna, a literatura indígena no Brasil continua sendo negada, da mesma forma que os próprios povos indígenas, apesar da luta em favor deles, desde a década de 1970, pela União das Nações Indígenas (UNI); da inclusão dos direitos dos índios na Constituição de 1988; do surgimento, nos anos 1990, do Conselho de Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Brasil (Capoib) etc.
Lembrando que
[...] o estudo da representação do negro e do índio na literatura requer uma abordagem específica [...] A expressão artística do ameríndio e do africano sugere uma leitura das diferenças, pois o ato de conhecer o outro implica o ato de interiorizar a história, a autohistória, as nossas raízes (GRAÚNA, 2013, p. 47),
a autora faz ainda uma revisão sucinta da influência e da representação do índio na literatura ocidental, em particular na brasileira, até chegar na literatura indígena contemporânea, que exprimem, entre outras coisas, um sentido de resistência e de sobrevivência, o direito à palavra oral ou escrita, a denúncia do neocolonialismo e da opressão linguística e cultural etc. Procura estudar, nesse sentido, com mais profundidade, a produção literária de Eliane Potiguara, Daniel Munduruku, Saterê Yamã, Olívio Jekupé e Renê Kithãulu.
Concluindo, a autora afirma:
Reconhecer a propriedade intelectual indígena implica respeitar as várias faces de sua manifestação. Isso quer dizer que a noção de coletivo não está dissociada do livro individual de autoria indígena; nunca esteve, muito menos agora com a força do pensamento indígena configurando diferenciadas(os) estantes e instantes da palavra. Ao tomar o rumo da escrita no formato de livro, os mitos de origem não perdem a função nem o sentido, pois continuam sendo transmitidos de geração em geração, em variados caminhos: no porantim, no traçado das esteiras e dos cestos, na feitura do barro, na pintura corporal, nas contas de um colar, na poesia, na contação de histórias e outros fazeres identitários que os Filhos e as Filhas da Terra utilizam como legítimas expressões artísticas, ligando-as também ao sagrado (GRAÚNA, 2013, p. 172).

Mobilizando um vasto cabedal de teorias e perspectivas metodológicas, que vão da antropologia (Clifford, Mindlin, Clastres) aos estudos culturais (Hall, Bhabha, Canclini), passando ainda pela teoria literária, pela filosofia e pela história, Graça Graúna nos oferece um estudo perspicaz e inteligente de um assunto ainda pouco explorado pela academia, mas que merece não apenas ser mais pesquisado, mas principalmente mais conhecido e respeitado pelos leitores e pesquisadores de nossa cultura. E seu livro constitui um importante passo nessa direção.


References
GRAÚNA, G. Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil. Belo Horizonte: Mazza, 2013.  

Received on August 12, 2014.
Accepted on May 15, 2015.
 
License information: This is an open-access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution License, which permits unrestricted use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original work is properly cited.

Acta Scientiarum. Language and Culture Maringá, v. 37, n. 3, p. 327-328, July-Sept., 2015


quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Folia de Reis



Folia de Reis



Os reis mag(r)os lentamente
caminham pelo sertão
anunciam que a vida
é de curta duração
enquanto o sol arrebentar
em pedacinhos o chão

Léguas e luas de sede
ovos de camaleão
mas nem tudo está perdido:
na direção da estrela
a flor do mandacaru
dá esperança ao sertão


Graça Graúna

Nordeste do Brasil, janeiro de 2017.


Nota: escrevi este poema em dezembro de 1981. Em 1999  foi publicado no meu primeiro livro de poemas Canto Mestizo, prefaciado por Leila Míccolis (Ed. Blocos RJ).

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Das palavras e seus silêncios


Ilustração: Fabiano Sobreira


Das palavras e seus silêncios

Graça Graúna


Falta pouco para fecharmos mais um ciclo do tempo em nossas vidas. Isto significa que devemos estar atentos a mais um rito de passagem para o novo.
Por onde começar? Para onde ir? Por que e para que refletir sobre os tantos caminhos que haveremos de percorrer? O que virá? Que escolha fazer: o caminho do diálogo ou o seu oposto? Dizer não à intolerância, ao machismo, ao preconceito e a outras formas de violência é uma maneira de colocar-se a serviço da humanidade.
Falta pouco para fecharmos mais um ciclo do tempo em nossas vidas.
Um caminho possível para intuir o que virá reside no desafio que é amar o outro; diga-se de passagem, uma travessia difícil, pois à medida que não respeitamos as diferenças, aguçamos em nós a falta de fé no outro.  Nesta perspectiva, tomo a liberdade de compartilhar as palavras e os seus silêncios que alimentam as dezenas de entrevistas que o jornalista Lauro Henriques Jr. realizou para compor o livro: Palavras de poder (Editora Leya, São Paulo, 2011, volume Brasil). Dessa obra, entre os entrevistados, sublinho as palavras de Pedro Casaldáliga (pp. 131-143).
A propósito do poder que tem as palavras, o bispo da terra sem males enfatiza: “É preciso colocar a fé e a esperança em nome da solidariedade. Crer que uma nova vida é possível é o primeiro passo para que ela se realize” (p. 132). Ao refletir sobre o papel da fé na construção da humanidade, Casaldáliga ressalta que o diálogo entre os diferentes credos não deve limitar-se ao aspecto religioso, considerando que, juntas, as religiões ampliem as perspectivas de atender “aos desafios da atualidade: a fome, o armamentismo, a intolerância, o machismo, a depredação ecológica”(p. 134). No eixo dessa comunicação, Casaldáliga adverte que as pessoas não precisam renunciar a crença, a etnia para reconhecer-se cidadão ou cidadã do mundo. Em outras palavras, ele acrescenta: “só quem vive a sua identidade de modo sereno, adulto, é capaz de dialogar. [...] Se não criarmos uma cultura de paz a partir do próprio coração, não tem saída” (p.134).
Casaldáliga fala dos sinais de esperança que se manifestam, por exemplo, na solidariedade entre os diferentes povos; solidariedade que se transforma em bandeira de paz ou como ele sugere à luz da poesia da nicaraguense Gioconda Belli: “a solidariedade é a ternura dos povos” (p. 135).
Da relação entre religião e política, ele observa que na maioria dos países a separação entre Igreja e Estado é positiva; para que essa relação se concretize é necessário que as pessoas “saibam conjugar a sua fé com a sua cidadania e, motivados por essa fé, sejam mais éticos e mais comprometidos com o próximo” (p.135). Ainda sobre esse exercício de cidadania, Casaldáliga menciona o espetáculo que foi a “Missa da terra sem males”, na década de 1970, em defesa da causa indígena. A missa contou com a parceria de Milton Nascimento (cantor)  e Pedro Tierra (poeta). Na mesma época, Dom Casaldáliga celebrou a Missa dos Quilombos em defesa da causa negra.
Quanto ao papel da arte, da poesia em nossas vidas, Casaldáliga cita Santo Agostinho: “cantar é rezar suas vezes” e orienta que: “falar poeticamente é comunicar-se com a boca e com os olhos, enviando um pouco da própria alma em cada palavra que se diz” (p.136).
Eu passaria aqui, horas e horas sublinhando as boas palavras do bispo de Araguaia, mas prefiro deixar esta leitura em aberto a fim de que outros(as) leitores(as) intuam sobre o desafio que é “a convivência no respeito, no estímulo, no carinho” (p.139); ou sobre a utopia de que trata Casaldáliga à luz do pensamento de Eduardo Galeano: “a utopia é como um horizonte: a gente não alcança nunca, mas, graças a ela, continuamos caminhando” (p.141).

Porque falta pouco para fechar mais um rito de passagem em nossas vidas, reitero a importância de repensar acerca do nosso lugar no mundo, sem medo de enfrenta-lo e sobre os nossos desejos de tornar o mundo melhor. 



Nordeste do Brasil, 25 de dezembro de 2016
Graça Graúna

domingo, 25 de dezembro de 2016

Interpretações do Natal


Crédito da imagem: Jairo Luna



INTERPRETAÇÕES DO NATAL
                            Jairo Luna*

Pois seja na versão de Saramago,
Ou na versão vetada de Godard,
Veja a de Zeffirelli, o mago
Clássico ou de Jewison Superstar...
Pensemos na de Bruggemann: afago
Nas Quatorze Estações sem pecar
De Maria...A Paixão de Gibson; o vago
E singelo Delannoy...Hora de orar!...
L’annunciazione bela de Da Vinci,
Adoração dos Pastores de Goes,
De Ghirlandaio, Caravaggio, ou Lynch...
Enfim, o que vale a todos nós,
No Natal é a esperança-olho-de-lince...
A soar um canto em voz de mil sóis!


(*)Jairo Luna: poeta, professor adjunto nos cursos de Letras (Licenciatura e Metrado) da UPE.


Nota: agradeço ao poeta Jairo ter permitido a postagem do seu poema neste Blog.  Em tempo, desejo a todos que a esperança e luz do  Natal se propagem no Ano Novo.

Abraços mil, Graça Graúna

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Pelo direito de sonhar um mundo melhor


Imagem disponível no Google

Paz no Natal e no Ano Novo.
Abraço grande,
Graça Graúna

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

No Projeto Brasis uma Canção Peregrina


Em junho de 2016, a convite da pesquisadora  Mayra Fonseca, participei do Projeto Brasis, quando abordei junto a outros mestres da Cultura Brasileira o tema "Outras narrativas: a literatura como plataforma para compartilhar outros modelos de pensamento e aproximar mundos". Participar do Projeto Brasis foi e continua sendo uma das ações mais importantes da minha vida de cidadã, mulher indígena, educadora, escritora. Minha gratidão a Mayra Fonseca e a todos pelo presente maravilhoso em forma de vídeo e exposição sobre o meu poema "Canção peregrina". Que Ñanderu, Deus, Tupã e todos os Orixás acolham a todos(as) na tessitura de muitas histórias e diferentes etnias.
Saudaçoões indígenas,

Graça Graúna

Obs.: na sequência, o e-mail que recebi da amiga e pesquisadora Mayra Fonseca


****




Graúna, minha querida.

Como você está?

Por aqui, muito trabalho e bastante correria. Como parte do trajeto da residência Os Brasis em São Paulo, vamos abrir a exposição no Red Bull Station no dia 22 de novembro: sinta-se convidada e faço questão de que convide quem achar adequado.


Mas, agora, te escrevo para compartilhar em primeira mão uma decisão. A tua fala nos tocou e nos despertou muito no dia de abertura do festival. Todos ficamos emocionados e nos sentimos chamados pela canção peregrina. 

Por isso, decidimos, como você tinha me autorizado, usar o texto do poema como insumo para duas obras como agradecimento e homenagem a você e todos os nosso povos indígenas:
_ este vídeo, declamado por muitos de nós no festival, é o primeiro chamado para a exposição e para que a cidade de São Paulo perceba todos os povos que a habitam
_ na exposição, teremos uma parede que também fará referência ao poema: vamos instalar uma grande corda azul caindo do texto em vasos com contas e miçangas, vamos um convidar os visitantes a preencher o fio com as contas e miçangas, tecendo um colar. Na parede, estará escrito: "eu tenho um colar de muitas histórias e diferentes etnias". 

Tanto aqui no vídeo como na parede, faremos referência a você como a autora. 
Fique à vontade para divulgar essa peça como achar melhor e para usá-la em qualquer situação que achar adequado, ela é tua. 

Um grande beijo.

Saudações indígenas.

Mayra

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Educação e direitos humanos: livros, leitores e leituras


Credito da imagem: GGraúna

Educação e direitos humanos: livros, leitores e leituras
 
Graça Graúna
Escritora indígena,
Educadora universitária(UPE)

No Brasil, o calendário nacional traz uma data para comemorar o Dia do Livro: 29 de outubro. Mas até que ponto se comemora de fato a prática da leitura no país, sobretudo quando estudantes e educadores, por exemplo, se veem ameaçados pela PEC 241, isto é, uma proposta de emenda constitucional que quer porque quer congelar gastos com saúde, educação e assistência social por 20 anos?
Em tempos difíceis como este, em que os hospitais públicos estão sucateados; a assistência social é banalizada e a Educação uma das áreas mais prejudicadas; é importante sublinhar um trecho da Introdução do Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos – PNEDH: “nada mais urgente e necessário que educar em direitos humanos, de todas as formas possíveis, como tarefa indispensável para a defesa, o respeito, a promoção e a valorização desses direitos” (PNDH,2006, p. 5)
Da relação entre educação e direitos humanos, convém perguntar: o que é o livro e para que serve? Qual o papel do leitor? E sobre a importância do ato de ler, quem ainda se lembra? Certamente, essas questões exigem um aguçar a nossa memória, a começar pela maneira de ser e de viver que herdamos dos nossos ancestrais em rodas de conversa, no aconchego de contações de histórias em volta da fogueira. Não devemos esquecer as bibliotecas humanas (contadores de história, poetas, leitores, escritores, estudantes, homens, crianças mulheres, moradores de rua, religiosos e uma infinidade de pessoas de diferentes idades e profissões, entre tantos outros cidadãos do mundo) que contribuem para criar uma cultura universal dos diretos humanos.
Na época do Brasil colonial, uma dessas pessoas fez da palavra a sua missão. Diga-se de passagem: foi árdua a sua tarefa de mostrar a valorização da amizade entre povos indígenas e outros grupos étnico-raciais e a importância de exercitar o respeito, a tolerância. Nesta perspectiva cabe citar o pensamento do lusitano Padre Antônio Vieira: "O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive."  
Nos tempos modernos, outro religioso vestiu-se também de coragem para se comunicar com o público e lançou pelas ondas da Rádio Olinda (Pernambuco) o programa “Um olhar sobre a cidade”, em plena ditadura militar. Ele não escondia o seu gosto pela música e outras artes. Além da Bíblia, Dom Helder lia as ruas e tudo que o aproximasse do povo. Das músicas que costumava ouvir, destaca-se “Cidadão”, de Zé Geraldo. Na crônica intitulada “Entrada proibida” (p.75), Dom Helder fala da historia de um operário da construção civil que ajudou a construir uma escola onde filho de pobre não pode estudar. Um trecho da canção revela o seguinte:

Tá vendo aquele colégio moço?
Eu também trabalhei lá.
Lá eu quase me arrebento.
Fiz a massa, pus cimento
E ajudei a rebocar.
Minha filha inocente vem pra mim toda contente:
Pai, vou me matricular...
Mas me diz um cidadão, criança de pé no chão
Aqui não pode estudar.

Quem ainda quiser ouvir que ouça a sua homilia (pregação) em estilo familiar que busca explicar um tema ou texto evangélico, em forma de crônicas. Refiro-me ao livro “Meus queridos amigos”, de Dom Helder Camara; um livro organizado por Tereza Rozowykwiat (2016), cujo título é uma alusão a frase com que o autor iniciava as crônicas.
 E o que pensa Hermann Hesse (escritor alemão), sobre livro, leitor e leitura? Ele, o livro tem o poder de aproximar as pessoas. Nessa perspectiva, Hesse observa: "Ler um livro é para o bom leitor conhecer a pessoa e o modo de pensar de alguém que lhe é estranho. É procurar compreendê-lo e, sempre que possível, fazer dele um amigo". Outro grande pensador que nos impele a estreitar os laços com a educação libertadora é Paulo Freire. Poucos o veem também como poeta e é nesse patamar que eu tomo a liberdade de apresentar os versos que escrevi em 2 de setembro de 2007, durante o VI Colóquio Internacional Paulo Freire, no Centro de Convenções da UFPE. Em homenagem ao livro Pedagogia da indignação e ao seu autor, apresento minha “Poética da autonomia”:

I
Minha voz tem outra semântica,
outra música. Neste ritmo,
falo da resistência
da indignação
da justa ira dos traídos
e dos enganados

II
Apesar de tudo,
jamais desistir de apostar
na esperança
na palavra do outro
na seriedade
na amorosidade
na luta em que se aprende
o valor e a importância da raiva.
Jamais desistir de apostar demasiado
na liberdade

III
Apesar de tudo,
cabe o direito de sonhar
de estar no mundo
a favor da esperança
que nos anima

(Graça Graúna)


  O livro não é apenas um objeto composto por diversas páginas. O livro é bem mais que um conjunto de textos, imagens e outros itens que podem ser impressos ou compartilhados no formato e-book. Como se pode ver, a noção de livro não restringe o seu uso para entretenimento ou para uso educativo. Muito mais que isso, o livro pode ser também uma ou mais pessoas. Pelo menos é que sugere a ideia de “Biblioteca Humana”, ou seja, um projeto que começou na Dinamarca e que oferece um catálogo em que as pessoas selecionam o tópico que querem ouvir. Em outras palavras, um dos objetivos da Biblioteca Humana “é oferecer pessoas no lugar de livros. Os leitores curiosos podem fazer perguntas e desafiar as suas percepções sobre os diferentes grupos da comunidade”.
Entretanto, apesar do silenciamento contra os que defendem a estreita relação entre direitos humanos e educação, não está fora da validade realizar e fortalecer campanhas para mostrar como os livros podem beneficiar a cultura dos indivíduos, pelo humano direito ao  sonho que  se sonha junto e de torna-lo realidade por meio de uma educação libertadora.



Referências


BIBLIOECA HUMANA. Disponível em: http://nossacausa.com). Acesso em 31.out.2016.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. São Paulo: Unesp, 2000.

GRAÚNA, Graça. Poética da autonomia. Poema. Disponível em: http://ggrauna.blogspot.com.br/2007/10/potica-da-autonomia.html. Acesso em 31.out.2016.

PLANO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura; Ministério da Educação; Ministério da Justiça; Secretaria Especial dos Direitos Humanos. Brasília, DF, 2006.

ROZOWYKWIAT, Tereza (Org.). Meus queridos amigos: as crônicas de Dom Helder Camara. Recife: Cepe Editora, 2016.

Citações. Pe. Antonio Vieira. Disponível em: https://pensador.uol.com.br. Acesso em 31.out.2016.



segunda-feira, 20 de junho de 2016

Escritos indígenas: uma antologia


Foto da capa: tela de Uziel Guaynê

O mercado editorial brasileiro traz ao público mais uma obra de autoria indígena. Trata-se da antologia Escritos indígenas, publicada no formato e-book, pela Editora Cintra, São Paulo, em 2013. .Da antologia participam dez escritores: Aldair Marauáh,  Giselda Jerá, Graça Graúna, Guayné Maraguá, Jaime Diakara,  Lia Minápoty, Nilson Karaí, Olívio Jekupê, Roní Wasiry Guará, Tiago Hakiy e Yaguarê Yamã. A respeito dos autores, Leda Cintra comenta que "alguns são premiados, outros mais recentes, mas todos de inegável qualidade literária, por isso todos reunidos nesta antologia que esperamos que encante os leitores das cidades no conhecimento dessa parte do universo até aqui tão pouco difundida, nos relatos, nos saberes ancestrais tão atuais, no ser universal”, Ela enfatiza que nessa antologia "estão  alguns dos mais representativos escritores indígenas contemporâneos do Brasil".
Para saber mais, acesse:
www.editoracintra.com

Telefone:  (11) 3731 7575, 

segunda-feira, 6 de junho de 2016



52º  CONCURSO  INTERNACIONAL  
DE  POESIA  Y  NARRATIVA
“ABRAZANDO  PALABRAS  2016”


El Instituto Cultural Latinoamericano desde su nacimiento en el año 2000 se propuso brindar un espacio de oportunidades, es por eso que invita a autores mayores de 16 años, a participar del 52º Concurso Internacional de Poesía y Narrativa “ABRAZANDO  PALABRAS 2016”. Las obras deberán ser inéditas, no premiadas con  anterioridad, tema libre, en idioma español.

PUEDEN PARTICIPAR CON:
POESIA:
de 3 a 7 poemas, con un máximo de 30 líneas cada uno.
NARRATIVA:
mínimo 90 líneas, máximo 210 líneas, ya sea en uno o varios trabajos.
PRESENTACIÓN DE LAS OBRAS: Las obras se presentarán en hojas tamaño A4, por triplicado, mecanografiadas o PC, escritas por una sola de sus caras, firmadas con seudónimo.

DATOS DEL AUTOR:
En un sobre pequeño, que irá junto con las obras, tendrá que incluir los siguientes datos: Nombre y Apellido, DNI, Dirección, E-mail y Teléfono.

ENVIOS: 52º  Concurso Internacional de Poesía y Narrativa  “ABRAZANDO  PALABRAS” Lebensohn 239, (C.P. B 6000 BHE), Junín, Pcia. de BUENOS AIRES, ARGENTINA.
Las obras que resulten finalistas con “Mención de Honor”, quedarán seleccionadas para participar del Intercambio cultural con Cuba, Brasil, Colombia, España (con precios muy accesibles), que se realiza cada año, presentándose en distinguidos lugares.

Y tendrán la oportunidad de formar parte de la Antología cooperativa “ABRAZANDO  PALABRAS”, y de esta forma integrarán la final por los PRIMEROS  PREMIOS  que son:
1º PREMIO Edición de LIBRO individual de 64 páginas, 100 ejemplares, Diploma y Trofeo, en poesía y  narrativa. Incluye presentación en nuestros eventos, intercambios culturales y publicidad en nuestro stand.
2º PREMIO: Trofeo y Diploma.              
3º, 4º y 5º PREMIO: Medalla y Diploma.

Se entregarán las Menciones Especiales que el jurado estime conveniente, recibirán Medalla y Diploma, el resto de los integrantes de la Antología recibirán Diploma y Medalla de “MENCIÓN  DE  HONOR”.

CEREMONIA DE PREMIACIÓN Y ENTREGA DE ANTOLOGÍAS:  Se realizará el día 26 de NOVIEMBRE de 2016, (salvo que surgieran imprevistos de fuerza mayor), en el Salón Sociedad Comercio e Industria de Junín (25 de Mayo 65) de nuestra ciudad, la ceremonia contará con diferentes exposiciones, etc. Luego, podrán compartir una cena, más detalles le serán informados cuando reciban la invitación especial para asistir a la Ceremonia.  Los autores que no puedan asistir a la ceremonia, podrán solicitar el envío por correo en forma Contra rembolso.
RECEPCIÓN DE OBRAS: Las obras se pueden enviar hasta el 30 DE JUNIO de 2016 (inclusive). Se toma en cuenta la fecha del matasellos del correo. 
JURADO: Estará integrado por personalidades del quehacer literario y su fallo será inapelable. El concurso no será declarado desierto. Los participantes toman conocimiento y aceptación de las bases del mismo. Cualquier cuestión no prevista será resuelta por el jurado.


Instituto Cultural Latinoamericano 
Lebensohn 239 – C.P. B 6000 BHE- Junín-Buenos Aires-Argentina.
Tel. 
+54-0236-4423734- o bien al Tel. móvil: 236-4682109
E-mail: 
iclatinoamericano@yahoo.com.ar
Blog: 
institutoculturallatinoamericano.blogspot.com.ar
Facebook: Instituto Cultural Latinoamericano



A FNLIJ e o 13º Encontro de Escritores e Artistas Indígenas
Palestras, debates e encontros com escritores  sobre o universo da Literatura Infantil e Juvenil são aspectos chaves na programação dos Seminários da FNLJ.
O 18º Seminário FNLIJ Bartolomeu Campos de Queirós será realizado nos dias 13, 14 e 15 de junho. Entre os temas abordados, constam: a Literatura Infantil e Juvenil na Espanha, Avaliação e Encerramento do Concurso Escola de Leitores, debates sobre o Plano Municipal do Livro, Leitura e Biblioteca e muito mais. As inscrições estarão abertas a partir do dia 9 de maio. Nesse período, acontecerá a 13ª edição do Encontro de escritores e artistas indígenas.

                                                                PROGRAMAÇÃO
Dia 13 de junho de 2016
Livros e Leitura para Crianças e Jovens na Espanha

9h – Abertura
9h30 – Um Panorama da Literatura Infantil e Juvenil na Espanha
Teresa Corchete Sánchez – Especialista em LIJ / María Jesús Esther Gil Iglesias – Representante da OEPLI – Seção Espanhola do IBBY / Mediação: Isis Valéria Gomes – Presidente do Conselho Diretor da FNLIJ

10h30 – Políticas Públicas do Livro e da Leitura na Espanha
Mónica Fernández Muñoz– Subdiretora Geral de Promoção do Livro, da Leitura e das Letras Espanholas do Ministério de Educação, Cultura e Esporte / Sara Moreno Varcárcel – Presidenta do Conselho Geral do Livro Infantil e Juvenil / Participação de Volnei Canônica ­– Diretoria do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca do Ministério da Cultura (DLLLB/MinC) / Mediação: FNLIJ

11h30 – Os Escritores de LIJ do País de D. Quixote
Gemma Lienas /  Maite Carranza / Ledicia Costas / Alfredo Gómez Cerdá / Participação de Ana Maria Machado / Mediação: FNLIJ

13h – Almoço
14h30 – Os Ilustradores de LIJ do País de D. Quixote
Xan López Domínguez / Javier Zabala │ Maite Gurrutxaga / Participação de Marina Colasanti/ Mediação: FNLIJ

15h30 – A Leitura de Imagens e a Formação do Leitor
Teresa Colomer Martínez – Criadora e Coordenadora do Primeiro Curso de Pós-Graduação na Área de Bibliotecas Escolares da Espanha – Universidade Autônoma de Barcelona (UAB) /Mediação: Elizabeth Serra – Secretária-Geral da FNLIJ

16h30 – Encerramento
17h – Sessão de Autógrafos no Hall


Dia 14 de junho de 2016
Avaliação do Concurso Escola de Leitores – Instituto C&A

9h – Abertura
Simone Monteiro de Araujo – Gerente de Mídia-Educação e Coordenadora do Programa Rio, uma cidade de Leitores/ Isis Valéria Gomes – Presidente do Conselho Diretor da FNLIJ/  Patrícia Lacerda – Gerente da Área Educação, Arte e Cultura – Instituto C&A

9h30 – Programa Escola de Leitores – Instituto C&A
Patrícia Lacerda/ Cintia Filpo – Instituto de Desenvolvimento Educacional, Cultural e de Ação Comunitária (IDECA)

10h – A Escola de Leitores na Cidade do Rio
Simone Monteiro de Araujo – Gerente de Mídia-Educação e Coordenadora do Programa Rio, uma cidade de Leitores/ Elizabeth Serra – Secretária-Geral da FNLIJ

10h45 – O 3º Concurso Escola de Leitores no Rio
Ana Paula Cardoso Soares – Representante de Escola Vencedora (E.M. Conde de Agrolongo)/ Solange Simões Alves – Representante de Escola Vencedora (E.M. Conde de Agrolongo) / Mediação: Marisa Borba – Conselho Diretor da FNLIJ

11h30 – O Intercâmbio com a Colômbia
Silvia Castrillón – Bibliotecária e Especialista em Leitura e Literatura Infantil e Juvenil; Mediação: Elizabeth Serra – Secretária-Geral da FNLIJ

12h30 – Almoço
            Políticas Públicas do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas

14h – Conversas sobre Políticas Públicas do Livro e Leitura: Olhares Daqui e de Lá
Secretaria Municipal de Educação RJ – Simone Monteiro de Araujo – Gerente de Mídia-Educação e Coordenadora do Programa Rio, uma cidade de Leitores/ Secretaria Municipal de Cultura RJ – Gisele Lopes – Gerente do Livro e Leitura/ Secretaria Estadual de Cultura RJ – Vera Schroeder – Superintendente do Livro e Leitura/ Silvia Castrillón – Bibliotecária e Especialista em Leitura e LIJ

15h30 – Políticas Públicas de Leitura e Biblioteca à Luz do Inaf (Indicador de Alfabetismo Funcional) 2015   – Organizado pelo GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas)
– O GIFE e as Redes Temáticas  Ana Carolina – Gerente de Relacionamento e Articulação do GIFE
– Rede Leitura e Escrita de Qualidade para Todos e Mediação – Christine Fontelles – Consultora de Educação do Instituto Ecofuturo e Integrante da Coordenação da Rede
– Apresentação dos Dados do Inaf – Roberto Catelli – Ação Educativa
– Letramento na Educação Infantil, Formação do Leitor e Biblioteca – Nilma Lacerda –Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense
– Letramento de Jovens e Adultos, Formação Leitora e Biblioteca – Roberto Catelli – Ação Educativa


Dia 15 de junho de 2016

 Prêmios da FNLIJ – Roteiro para Formação de Leitores

9h – Abertura
Isis Valéria Gomes  – Presidente do Conselho Diretor da FNLIJ

9h30 – Prêmios da FNLIJ como Roteiro para Cursos
Elizabeth Serra – Secretária-Geral da FNLIJ

11h – Um Encontro com Lygia Bojunga
 Mediação: Ninfa Parreiras – Autora, Tradutora e Especialista em LIJ

12h – Lygia Bojunga Autografa seus Livros

13º Encontro de Escritores e Artistas Indígenas
Literatura Indígena como Utopia
As histórias sustentam a fé e dão cor para alma do povo. Estas vozes ancestrais ganham voz e força por intermédio dos contadores, que retransmitem o sentido e função da existência do mundo e dos seres que habitam a terra e o universo. É neste caminho que os autores indígenas recontam estas histórias por meio da literatura infantil e juvenil.
14h – Abertura
Daniel Munduruku – Instituto UK’a
Elizabeth Serra – Secretária-Geral da FNLIJ

14h30 – Há Espaço para a Utopia na Literatura Indígena para Crianças e Jovens Contemporâneos?
Cristino Wapichana – Palavra de Escritor, Artista e Produtor Eliane Potiguara / Palavra da Militante e Escritora / Vera Kauss – Palavra da Acadêmica e Leitora / Ninfa Parreiras – Palavra da Especialista e Pesquisadora / Mediação: Daniel Munduruku

15h45 – Entrega do Prêmio Concursos Curumim e Tamoios

16h – Conversa com o Público

16h30 – Encerramento e Lançamento Coletivo