sexta-feira, 20 de abril de 2018

Mulheres indígenas nos espaços culturais

Autora da matéria: Luana P.

DIA NACIONAL DO ÍNDIO E A PRESENÇA DAS MULHERES INDÍGENAS NOS ESPAÇOS CULTURAIS

No dia 19 de abril é comemorado o Dia Nacional do Índio, data proposta em 1940 no primeiro CongressoIndigenista Interamericano, realizado no México. O evento contou com a participação de diversas autoridades governamentais dos países da América e de vários líderes indígenas deste continente. Contudo, os indígenas não comparecerem aos primeiros dias do evento, temendo que suas reivindicações não fossem ouvidas – como vinha ocorrendo há algum tempo. Somente depois os líderes indígenas ponderaram sobre a importância daquele momento histórico e decidiram participar, comparecendo na data de 19 de abril. Durante o congresso foi criado o InstitutoIndigenista Interamericano, também sediado no México, que tem como função zelar pelos direitos dos indígenas na América. O Brasil não aderiu imediatamente ao instituto, mas, com a intervenção de Marechal Rondon, apresentou sua adesão e instituiu o Dia do Índio, no dia 19 de abril (criado pelo presidente Getúlio Vargas através do decreto-lei 5.540 de 1943), cumprindo a proposta do Congresso de 1940.
O Dia do Índio é considerado uma data de reflexão sobre a importância e preservação da diversidade dos povos indígenas e respeito às suas manifestações culturais. Infelizmente, nem sempre a data é bem aproveitada nesse sentido e é ainda arraigada no imaginário brasileiro uma imagem estereotipada e preconceituosa do indígena. Ao contrário do que muitas escolas insistem em propagar, por exemplo, há muitas formas de ser um indígena no Brasil que vão além da utilização simbólica do cocar ou morar em uma aldeia. Os indígenas hoje estão em suas comunidades tradicionais com fortes lideranças, como a do xamã yanomami Davi Kopenawa, mas também estão nos grandes centros, como a presença do ativista ambientalista Ailton Krenak, e, especialmente, estão nas universidades que formam indígenas filósofoslinguistasantropólogosadvogadosmédicos, entre tantos outros profissionais. Os indígenas estão produzindo cinemamúsica e literatura. Também estão na política e no desenvolvimento sustentável. E, de Norte a Sul, esses povos estão organizados em lutas por seus direitos, suas tradições e seu reconhecimento perante a sociedade brasileira.
Inseridas nesse movimento estão as mulheres indígenas que, cada vez mais, crescem nos espaços de representação política, como demonstra a lista da Revista AzMina: Seis mulheres indígenas que vale a pena seguir nas redes. Em outra esfera, também tem se tornado cada vez maior o protagonismo feminino na manutenção da língua, na transmissão de saberes e de práticas tradicionais. É sobre isso e sobre elas que gostaríamos de destacar hoje, organizamos uma lista de mulheres indígenas atuando em espaços culturais que vale a pena você conhecer.

Na literatura: a escrita de Eliane Potiguara, Márcia Wayna Kambeba, 
Lia Minápoty e Graça Graúna


Eliane Potiguara é formada em Letras, licenciou-se em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e atua como professora, escritora e ativista dos direitos humanos. Ela possui sete livros publicados, mas foi em 2004 que lançou o seu livro mais famoso, Metade Cara, Metade Máscara, no qual compartilha narrativas pessoais e sobre sua etnia Potiguara em um misto de prosa e poesia. Publicado originalmente pela Global Editora, o livro foi reeditado este ano pela UK’A Editorial. Eliane trabalha, ainda, com diversos projetos que envolvem propriedade intelectual indígena e é Embaixadora da Paz pelo círculo de escritores da França e da Suíça. Ela é considerada um dos nomes mais importantes do movimento das mulheres indígenas, responsável pela criação do GRUMIN (Rede Grumin de Mulheres Indígenas), no qual luta desde a década de 80 pelo seu local de fala.
Onde encontrá-la: Facebook//Twitter/Site
Márcia Wayna Kambeba é destaque na poesia com seu livro Ay kakyri Tama – Eu Moro na Cidade. A identidade dos povos indígenas, a territorialidade e a questão da mulher nas aldeias são os principais temas abordados pela poeta. Natural da região do Alto Solimões (AM), nascida em uma comunidade indígena Tikuna, ela pertence à etnia Omágua/Kambeba. Márcia é escritora, fotógrafa e ativista, graduou-se e fez mestrado em Geografia, residindo atualmente em Belém (PA).
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Na literatura infantil temos o trabalho Com a Noite Veio o Sono (Editora Leya, 2011), de Lia Minápoty, no qual a escritora de origem Maraguá aborda o modo de pensar de sua etnia a respeito da noite. Lia é uma das jovens lideranças do povo Maraguá, atua também como artista plástica, especialista em grafismos indígenas além de fazer parte da diretoria da AMIMA (Associação das Mulheres Indígenas Maraguá).
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Outra escritora indígena com publicação para o público infantil é Graça Graúna com Criaturas de Ñanderu (Editora Manole, 2010), mas ela também publicou outros livros com suas criações poéticas, como Tessituras da Terra (Edições M.E, 2001). Descendente do povo Potiguara, Graça é educadora universitária na área de literatura e direitos humanos, é graduada em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no qual fez também mestrado sobre mitos indígenas na literatura infantil e se doutorou em literatura indígena contemporânea no Brasil; atua também na escrita acadêmica, como em seu livro Contrapontos da Literatura Indígena Contemporânea (Mazza Edições, 2013).
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No cinema: as mulheres indígenas na frente e atrás das câmeras


O cinema indígena surge não apenas como valorização da cultura e tradições das diversas etnias, mas, sobretudo, como um movimento de resistência. Assim é o trabalho de mulheres cineastas indígenas como Alcilane Melgueiro, Maria Cidilene Basílio, Elisangela Fontes Olímpio, Larissa Ye’padiho Mota Duarte e Claudia Dias Campos. 
Alcilane Melgueiro, da etnia Baré, ao lado da colega Maria Cidilene Basílio, do povo Tukano, registrou o método de plantação tradicional dos povos do Alto Rio Negro, no extremo norte do Amazonas, esse trabalho deu origem ao documentário Não Gosta de Fazer, Mas Gosta de Comer, com duração de 43 minutos. Elisangela Fontes Olímpio, do povo Baniwa, é responsável por Kupixá Yanékitiwara: Nora Malcriada, filme em que a cineasta faz uma conexão entre o mito indígena do título com cenas de seus parentes em trabalho de roçado. Já Larissa Ye’padiho Mota Duarte, da etnia Tukano, dirigiu Wehsé Darasé – Trabalho da Roça e Maria Claudia Dias Campos, indígena Tariano, dirigiu As Manivas de Basebó – Histórias e Tradições. Essas produções foram apresentadas na mostra Aldeia SP – Bienal de Cinema Indígena, em São Paulo. Vale comentar também sobre a Associação Yamurikumã das mulheres Xinguanas que realiza o projeto Kunhameret opora’anga ma’awa de apoio às mulheres cineastas xinguanas, muitas delas participaram da I Oficina de Formação Audiovisual das Mulheres Indígenas, promovida pelo do Instituto Capitu, que resultou no curta-metragem A História da Cutia e do Macaco.
Na frente das câmeras, conhecemos recentemente o trabalho de Zahy Guajajara, atriz da minissérie Dois Irmãos (produzida pela Rede Globo em 2017, com direção de Luiz Fernando Carvalho). Nascida na Reserva Indígena Cana Brava (MA), Zahy foi morar na cidade da Barra do Corda quando tinha oito anos para que pudesse estudar e aos 19 anos mudou-se para o Rio de Janeiro. Foi na cidade carioca, ao participar de manifestações contra a demolição da Aldeia Maracanã, que Zahy chamou a atenção por sua aparência e foi chamada para fazer um teste para Dois Irmãos, no qual começou sua carreira como atriz. Depois na minissérie, Zahy gravou o longa Não Devore Meu Coração, de Felipe Bragança, que passou pelo Festival de Sundance e Festival de Berlim. Gravou também um média-metragem, Sociedade da Natureza, do português Pedro Neves Marques. Zahy também atuou na peça de teatro Jamais ou Calabar, de Jorge Farjalla. Além disso, seu trabalho está atrás das câmeras: Zahy Guajajara é diretora, atriz protagonista e personagem de seu filme Zahy – Uma Fábula sobre o Maracanã.

Na música: Djuena Tikuna

A cantora Djuena Tikuna, nasceu na aldeia Umariaçu na região do Alto Solimões, na fronteira do Brasil com a Colômbia. Ainda criança, falante apenas da língua tikuna, mudou-se com a família para Manaus. Djuena, cujo nome significa “a onça que pula no rio”, começou a carreira de cantora influenciada pela prima, Cláudia Tikuna, e seu repertório é formado por músicas tradicionais de sua etnia Tikuna: “A música para nós, povos indígenas, é nativa, tanto quanto o mais velho ancião. É nativa porque nasce conosco, tem cheiro de fumaça, gosto de mapati [fruta] e é pintada de urucum e jenipapo”, disse a cantora em depoimento ao jornalista Jotabê Medeiros. Djuena Tikuna foi a primeira mulher indígena a protagonizar um espetáculo musical no Teatro Amazonas (em Manaus/AM), no lançamento do álbum Tchautchiane.
Onde encontrá-la: Facebook

Nas artes: Arissana Pataxó


Arissana Pataxó é artista plástica e desenvolve uma produção artística em diversas técnicas abordando a temática indígena como parte do mundo contemporâneo. Formada em Artes Plásticas pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (UFBA), desenvolveu ao longo de seus estudos atividades de extensão com sua etnia Pataxó em oficinas e produção de material didático. Arissana continua realizando essas atividades não apenas com sua etnia, mas com outros povos indígenas da Bahia. Em 2007, realizou sua primeira exposição individual, Sob o Olhar Pataxó, no Museu de Arqueologia e Etnologia da UFBA, em Salvador. Desde então ingressou no mundo artístico com participação em diversas exposições, como o Salão Regional de Artes Visuais de Porto Seguro (BA), em 2009, a exposição internacional Eco Arte no Museu de Arte de Montenegro (RS), em 2011, e mais recente a exposição itinerante Mira! Artes Visuais Contemporâneas dos Povos Indígenasrealizada em Belo Horizonte (MG) e Brasília (DF) entre 2013-2014. Arissana Pataxó também foi a segunda colocada o PIPAOnline 2016.
Onde encontrá-la: Site


** As artes que ilustram o texto foram feitas pela autora a partir de imagens de reprodução das artistas e seus trabalhos, com textura de fundo de uma tela de Arissana Pataxó.

sábado, 20 de janeiro de 2018

Dos saberes indígenas: o nosso papel também é fazer arte

Capa da "Revista Literatura e Debate", 
onde consta o seguinte Depoimento


 DOS SABERES INDÍGENAS: O NOSSO PAPEL TAMBÉM É FAZER ARTE

por Graça Graúna

A presente contribuição ao estudo da história e da cultura indígena no Brasil é uma releitura de minha entrevista à Palimpsesto, uma revista do Programa de Pós-Graduação em Letras da UERJ, em 2015. A releitura vinda da oralidade e transfigurada na escrita se transforma em escrevivência, no sentido de que estão vivas (em mim) a poesia, a história e a memória dos antigos. Expor essa escrevivência e preservá-la em forma de relato significa também resiliência, e é uma das maneiras de fortalecer a nossa resistência, a nossa identidade indígena. Negar essa resistência configura uma afronta, como diria Jerome Rothenberg na obra Etnopoesia do milênio (2000).
De Norte a Sul, de Leste a Oeste, tenho percorrido Universidades brasileiras onde tem lugar o incentivo a estudos e pesquisas acerca dos povos indígenas. Contudo, a indiferença e o descaso ocorrem também no meio universitário, onde nos deparamos com pessoas que trazem uma visão estereotipada acerca do indígena. Continue a leitura no link da “Revista Literatura e Debate”, da URI, v. 12, n.22, pp; 223-230:

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

UFBA: moção de repúdio


Crédito: UFBA

SERVIÇO PÚBLlC O FEDERAL
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA
CONSELHO UNIVERSITÁRIO


MOÇÃO


O Conselho Universitário da Universidade Federal da Bahia, reunido cm 13.11.2017, aprovou, por unanimidade, a moção de repudio proposta pela Conselheira Maria Hilda Baquciro Paraíso, Diretora da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, manifestando a indignação dos Conselheiros diante das tentativas de cerceamento de todo um campo de produção do conhecimento cientifico no quaI a Universidade Federal da Bahia é, ha décadas, referência, a saber, os estudos sobre gênero, diversidade, mulheres e feminismo.

Em episódios recentes, verificamos ameaças de morte e outros tipas de violência contrauma de nossas docentes, pesquisadora do NEIM (Núcleo de Estudos Interdisciplinar e sobre a MuIher); a tentativa de impedimento de defesa de uma dissertação de Mestrado de aluno do lHAC (Instituto de Hunanidades, Artes e Ciências), tendo que solicitar a segurança da própria Universidade; e a perseguição e ridicularização nas redes sociais de projetos de pesquisa e extensão que versam sobre essas temáticas.

Tais iniciativas obscurantistas nao têm se restringido à nossa Universidade. Vimas também elas se estendendo contra eventos cientificas, praticas culturais, artísticas - e intelectuais, par meio não apenas de ataques virtuais, mas também de cancelamento de exposições e censura à peça de teatro. Assistimos perplexos à tentativa de cerceamento e agressão à filósofa Judith Butler, que -m 2015 acolhemos corn tanta satisfaçao na UFBA. Também nos deixa estupefatos 0 inquérito policial instaurado contra um projeto de pesquisa de um professor da Universidade Federal de Ouro Preto, assim coma alterntativa de aprovação de diversos projetas de lei que violam frontalmente a Constituição Federal e Tratados e Convenções em Direitos Humanos vigentes.

o clima de intolerância que se estabeleceu neste Pais vern repercutindo de fanna drástica na liberdade de expressão, no livre exercício profissional e na autonomia universitaria para tratar de temas relevantes concementes a determinados segmentas sociais. As reações virulentas e ameaçadoras, particularmente no âmbito acadêmico, vêm tomando proporções assustadoras e desrespeitosas.

Nos posicionamos, portanto, contrários às investidas reacionárias que buscam calar o livre debate de ideias e silenciar todo um campo de estudos legitimamente construída eque é fundamental para que possamos ter uma sociedade menos violenta e desigual. A perseguição à liberdade de expressão cultural e cientifica nos envergonha e nos ultraja e
é uma afronta aos princípios da democracia.

Palâcio da Reitoria, 13 de novembro de 2017.

Joâo Carlos S'alles Pires da Silva
Reitor
Presidente do Conselho Universitário




terça-feira, 21 de novembro de 2017

Sobre visibilidade indígena na literatura

Matéria extraída do Blog Visibilidade indígena.
Por:  Luisa Geisler.


Cinco escritoras indígenas contemporâneas que você precisa conhecer!


O foco em autoras contemporâneas é importante para evitar uma ideia estereotipada da cultura indígena. Importa saber o que se faz hoje, que autores podemos ler hoje. Talvez a lista não seja perfeita nem honre todas as escritoras que merecem esse espaço. E claro que não honra os tantos autores homens, mas essa matéria se foca em discutir arte feita por mulheres.  

Eliane Potiguara

    Crédito: Silvia Villalva



Eliane Potiguara é professora e escritora indígena brasileira, de origem potiguara. Trabalha com diversos projetos que envolvem propriedade intelectual indígena, como o Instituto Indígena de Propriedade Intelectual e a da Rede de Escritores Indígenas na Internet, além de fazer parte da Rede Grumin de Mulheres Indígenas. Foi uma das 52 brasileiras indicadas para o projeto internacional “Mil Mulheres para o Prêmio Nobel da Paz”.No seu website oficial, a autora divulga sua literatura, em conjunto de um blog como parte de seu trabalho na rede GRUMIN de Mulheres Indígenas, da qual é fundadora e coordenadora.
Um de seus livro, Metade Cara, Metade Máscara (2014) fala de amor, de relações humanas, paz, identidade, histórias de vida, mulher, ancestralidade e famílias. É uma mensagem para o mundo, uma vez que descreve valores contidos pelo poder dominante e, quando resgatados, submergem o selvagem, a força espiritual, a intuição, o grande espírito, o ancestral, o velho, a velha, o mais profundo sentimento de reencontro de cada um consigo mesmo, reacendendo e fortalecendo o eu de cada um, contra uma auto-estima imposta pelo consumismo, imediatismo e exclusões social e racial ao longo dos séculos.

Lia Minapoty


Lia Minapoty é brasileira, maraguá, palestrante e atuante dentro da causa indígena. É autora de “Com a noite veio o sono”, publicado pela Leya. O livro trata do modo de pensar que os maraguás têm a respeito da noite. O livro trata de temas maraguás, informações relevantes à diversidade cultural do país, como por exemplo, a luta de reconhecimento e demarcação de terras indígenas. Dentro disso, o livro apresenta ilustrações de Maurício Negro. Lia tem um blog sem posts desde 2011, mas que mostra muito de sua arte até aquele momento, além de textos sobre a cultura indígena e sobre sua carreira.

Janet Campbell Hal




Janet Campbell Hale é uma escritora nativo-americana. O pai da autora era totalmente Coeur d’Alene, enquanto sua mãe era parte Kootenay e irlandesa. Por isso, o trabalho da autora em geral explora questões da identidade nativo-americana, ainda com questões como pobreza, abuso e a condição da mulher na sociedade. Escreveu Bloodlines: Odyssey of a Native Daughter, que é em parte biográfico, mas em parte uma discussão da experiência nativo-americana; The Owl’s Song,The Jailing of Cecilia Capture e Women on the Run.

Graça Graúna

Crédito: Íris Cruz

Graça Graúna é descendente de potiguaras e se formou em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco. Também fez um mestrado sobre mitos indígenas na literatura infantil e se doutorou em literatura indígena contemporânea no Brasil. É autora de Canto Mestizo (Ed. Blocos, 1999), Tessituras da Terra (Edições M.E, 2001) e Tear da Palavra, de 2007. Escreveu obras infanto-juvenis como Criaturas de Ñanderu (Ed. Manole, 2010).


Marisol Ceh Moo



Marisol Ceh Moo é mexicana, escreveu X-Teya, u puksi’ik’al ko’olel (Teya, un corazón de mujer), que foi o primeiro romance escrito em idioma maia. O livro foi publicado numa edição bilíngue pela Dirección General de Culturas Populares (México), com a versão em maia e em castelhano. Em entrevistas, a autora explica que as publicações em língua maia só haviam trazido narrativas curtidas, como o conto, o poema, o mito e as lendas. Marsiol Ceh Moo queria mais liberdade com os personagens, tempos verbais e contextos e, para isso, sentiu necessidade de uma narrativa mais longa.Teya, un corazón de mujer é o primeiro romance escrito por uma mulher em um dos idiomas indígenas do México e narra o assassinato de um militante comunista em Yucatán (México). A autora recebeu por essa narrativa o reconhecido Premio Nezahualcóyotl de Literatura en Lenguas Mexicanas.


quinta-feira, 16 de novembro de 2017

I ENCONTRO INTERNACIONAL DE CULTURAS AFRODESCENDENTES E INDÍGENAS DA AMÉRICA LATINA E CARIBE



Apresentação

O ÁFRICA BRASIL - V ENCONTRO INTERNACIONAL DE LITERATURAS, HISTÓRIAS E CULTURAS AFRO-BRASILEIRAS E AFRICANAS DA UESPI; I ENCONTROINTERNACIONAL DE CULTURAS AFRODESCENDENTES E INDÍGENAS DA AMÉRICA LATINA E CARIBE; VII COLÓQUIO DE LITERATURA AFRO-BRASILEIRA E AFRICANA e IV SALÃO DO LIVRO UNIVERSITÁRIO DA UESPI a se realizarem nos dias 22, 23 e 24 de novembro de 2017, na Universidade Estadual do Piauí, Campus Poeta Torquato Neto, Teresina, Piauí, Brasil, proporcionarão momentos de reflexão sobre narrativas e cidadania, no âmbito dos estudos interdisciplinares no que tange às áreas de literatura, cultura e história.
O contexto acadêmico, social e político brasileiro atual clama por reorientações teórico-reflexivas, a fim de enfrentarmos os entraves que se apresentam, em razão das imposições de novos modelos educacionais. Com as novas medidas que se anunciam como retrocessos, por exemplo, na exclusão da disciplina História no ensino brasileiro, se opor ao desmantelamento das áreas de humanas, reativando a importância do estudo da história e da cultura africana, afro-brasileira e indígena. O ÁFRICA BRASIL 2017 se justifica pela necessidade de discussão e reflexão diante das novas demandas educacionais, levando em conta a legislação vigente, a saber: a Lei de Diretrizes e Base de Educação Brasileira – LDB/9.394/96, nos Artigos 26-A e 79-B, alterada pelas Leis Federais 10.639/03 e 11.645/2008. A Lei Nº 10.639, de 09 de janeiro de 2003, ato promulgado pela Presidência da República do Brasil.
O ÁFRICA BRASIL 2017, Narrativas e Cidadania, projeta a importância dos estudos literários, uma vez que narrativizar o mundo é próprio dos(as) literatos (as), historiadores (as), contadores (as) de história e demais sujeitos, na esteira de Homi Bhabha, Gayatri Spivak, Achile Mbembe, Kwame Anthony Appiah, Valentim Yves Mudimbe, Jan Vansina, Joseph Ki-Berbo, A. Hampaté Bá, Carlos Moore, Kabengele Munanga, Angela Davis, Lélia Gonzales, Sueli Carneiro, Eduardo de Assis Duarte, Cuti, Conceição Evaristo, Elio Ferreira e tantos outros (as) teóricos (as) e/ ou pesquisadores (as) africanos (as) e afro-brasileiros (as).

Prof. Dr. Elio Ferreira de Souza
Coordenador Geral

Entre os 62 (sessenta e dois) Palestrantes, constam 5 (cinco)  indígenas da América Latina:

Prof. Drª Elvira Espejo Ayaca (Nação Aymara / Bolívia)

Prof. Dr. Gersem Baniwa (Indígena, antropólogo, UFAM)

Profª Drª Graça Graúna (Indígena potiguara/RN, UPE)

Sra. Frncisca Cariri (Lideança indígena, Piaui)

Sr. Henrique Tabajara (Liderança indígena, Piauí)

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Do amor pela vida



Quem ama de verdade, sabe que o Amor não faz distinção.
Quem ama, nem precisa (se) perguntar se esse sentimento é mesmo tão indispensável, pois o ato de Amar já é uma resposta.   
O grande personagem do livro é o Amor e a contadora de história é uma menina terena que tem um grande amor pela vida.
A autora do livro é Niara, da etnia Terena. Tem 11 aninhos, gosta de ler, escrever e desenhar pessoas e cachoeiras. Do jeito que ela escreve, parece uma filósofa. E por falar em filosofia, quem fez o prefácio do livro foi Daniel Munduruku. Que chic, não é?
Gostei tanto desse livro que eu também o recomendo cm todo Amor que eu tenho nesse mundo.
Saudações da potiguara,

Graça Graúna

Nordeste do Brasil, 
9 de outubro de 2017



FICHA TÉCNICA:
Editor: Téo Miranda, Editora sustentável
Projeto gráfico e finalização: Editora Sustentável
Coloração: Niara Terena e Téo Miranda
Colaboração: Naine Terena de Jesus
Revisão textual: Cristina Campos
ISBN: 978-85-67770-06-2

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Escrevivência indígena



       O poema "Escrevivência indígena", de minha autoria, foi escrito há muitos anos e, recentemente, ganhou outra roupagem na formatação ou na diagramação, na página do twitter @poesianaalma, da escritora Lilian Farias. A arte fotográfica é de Lilian, autora do Blog "Poesia na alma". 
       Estou muito encantada com este presente que se transforma em selo e mais que isso; representa para mim reconhecimento em torno dos saberes indígenas do qual faço parte desde nascença, melhor dizendo, antes mesmo de vir ao "novo mundo", em forma de gente que carrega desde sempre espírito de pássaro. À Lilian Farias, gratidão pelo carinho e pela  atenção aos meus escritos. 
       Saudações indígenas
                            Graça Graúna 

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Literatura indígena: roda de conversa na Ufba


Ilustração: Maurício Negro

Literatura indígena: roda de conversa na Ufba. O cartaz do  Encontro é uma homenagem ao ilustrador Maurício Negro; o cartaz é uma releitura da capa da Revista Continente, em um número especial dedicado à Literatura indígena no Brasil.

domingo, 6 de agosto de 2017

II Jornada de Crítica Literária Ecocríticas da UNB, com Álvaro Tukano e Graça Graúna




II Jornada de Crítica Literária 
Ecocríticas: Estados de Natureza 

Datas: 14 e 15 de agosto de 2017 
Local: Auditório do IL, subsolo do ICC Sul 


1. Introdução ao evento 


        A Natureza já foi vista como o elemento negativo frente ao qual o Humano se afirmava. Sabe-se, hoje, que outras relações são possíveis - é o que mostra a vida e a experiência dos povos indígenas. No plano teórico, passou-se a pensar na Natureza enquanto múltiplo (o "multinaturalismo" de Eduardo Viveiros de Castro) e na inadequação do conceito (a "ecologia sem natureza", de Timothy Morton). Dentro do que chamaríamos de "Cultura", sabe-se que o fundamento do Estado é biológico - seja na relação do conceito de soberania com o animal (em Agamben e Derrida), seja na relação biopolítica do Estado com os seus sujeitos (Foucault). 
       Trata-se ainda, portanto, de repensar o conceito de Estado através de sua relação com o "natural", problematizando os conceitos utilizados. Se, nas teorias do Estado que surgiram na esteira do contato dos europeus com os ameríndios, pensava-se num "Estado de natureza" como ficção explicativa do contrato social, pode-se agora pensar em Estados de Natureza, uma multiplicidade de relações que aproximam e contrapõem o Estado enquanto prática político-policial a uma Natureza múltipla sob constante ameaça. 
       Tais relações múltiplas perpassam o campo dos estudos literários. A consolidação da área da Ecocrítica, nos últimos anos, reafirma a relevância de se discutir as múltiplas relações entre “natural” e humano. Dentro do panorama contemporâneo, devassado pela crise ambiental e por crises humanitárias sem número, a crítica literária tem uma responsabilidade frente ao presente: como pensar uma literatura que se engaja em temáticas que cruzam os campos do Estado e da “Natureza”? 

Promoção:
Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea

Agências financiadoras: FAP-DF e CAPES

Coordenador: Pedro Mandagará (UnB)

Comissão Organizadora:
Anderson Luís Nunes da Mata (UnB)
Leila Lehnen (University of New Mexico)
Patrícia Trindade Nakagome (UnB)
Virgínia Maria Vasconcelos Leal (UnB)

Comissão Científica:
Ana Cláudia da Silva (UnB)
Devair Fiorotti (UERR-UFRR)
Regina Dalcastagnè (UnB)
Vinícius Gonçalves Carneiro (Paris-IV)

Programação e convidados
Dia 14 de agosto
19h – Abertura do evento
19h30 – Literatura e Direitos Humanos
Graça Graúna (UPE) Álvaro Tukano (Memorial dos Povos Indígenas, DF)

Dia 15 de agosto
9h30 – Biopolíticas 
Leila Lehnen (Universidade do Novo México)
Graziele Frederico (UnB)
Paulo Thomaz (UnB)

13h30 – Ecocríticas
Victoria Saramago (Universidade de Chicago)
Antonio Barros de Brito Junior (UFRGS)
Jorge Luiz Adeodato Junior (UFC)

16h – Alteridades 
Lucia Sá (Universidade de Manchester)
Devair Antonio Fiorotti (UERR-UFRR)
Waldson Souza (UnB)

18h – Lançamento das Edições Carolina Lançamentos de livros

terça-feira, 25 de abril de 2017

Uma canção em prol das terras indígenas

Foto: Agência Senado
Fonte: Folha de São Paulo
Uma canção em prol da demarcação de terras indígenas ecoa entre os indígenas, na Mobilização Nacional Indígena, entre os dias 24 a 28 de abril.. Composta por Carlos Rennó e musicada por Chico César, a canção “Demarcação Já” foi gravada por dezenas de artistas com destaque na cena musical brasileira.
Participaram da gravação, além de Chico César, Arnaldo Antunes, Criolo, Céu, Djuena Tikuna, Dona Odete, Elza Soares, Gilberto Gil, Felipe Cordeiro, Letícia Sabatella, Gilberto Gil, Lenine, Lirinha, Margareth Menezes, Maria Bethânia, Nado Reis, Ney Matogrosso, Russo Passapusso, Tetê Espíndola, Zeca Baleiro, Zeca Pagodinho, Zé Celso (Teatro Oficina) e Zélia Duncan.
A composição da música é uma iniciativa do Greenpeace, Instituto Socioambiental, Bem-te-vi em parceria com as produtoras Cinedelia e O2. A  letra da canção e o vídeo critica govmerno e ruralistas em prol da demarcação de terras indígenas.

https://youtu.be/wbMzdkaMsd0

“Demarcação já”


Já que depois de mais de cinco séculos
E de ene ciclos de etnogenocídio,
O índio vive, em meio a mil flagelos,
Já tendo sido morto e renascido,
Tal como o povo kadiwéu e o panará

– Demarcação já!
Demarcação já!

Já que diversos povos vêm sendo atacados,
Sem vir a ver a terra demarcada,
A começar pela primeira no Brasil
Que o branco invadiu já na chegada:
A do tupinambá –

Demarcação já!
Demarcação já!

Já que, tal qual as obras da Transamazônica,
Quando os milicos os chamavam de silvícolas,
Hoje um projeto de outras obras faraônicas,
Correndo junto da expansão agrícola,
Induz a um indicídio, vide o povo kaiowá,

Demarcação já!
Demarcação já!

Já que tem bem mais latifúndio em desmesura
Que terra indígena pelo país afora;
E já que o latifúndio é só monocultura,
Mas a T.I. é polifauna e pluriflora,
Ah!,

Demarcação já!
Demarcação já!

E um tratoriza, motosserra, transgeniza,
E o outro endeusa e diviniza a natureza:
O índio a ama por sagrada que ela é,
E o ruralista, pela grana que ela dá;
Hum… Bah!

Demarcação já!
Demarcação já!

Já que por retrospecto só o autóc
Tone mantém compacta e muito intacta,
E não impacta, e não infecta, e se
Conecta e tem um pacto com a mata
–Sem a qual a água acabará –,

Demarcação já!
Demarcação já!

Pra que não deixem nem terras indígenas
Nem unidades de conservação
Abertas como chagas cancerígenas
Pelos efeitos da mineração
E de hidrelétricas no ventre da Amazônia, em Rondônia, no Pará…

Demarcação já!
Demarcação já!

Já que “tal qual o negro e o homossexual,
O índio é ‘tudo que não presta'”, como quer
Quem quer tomar-­lhe tudo que lhe resta,
Seu território, herança do ancestral,
E já que o que ele quer é o que é dele já,

Demarcação, “tá”?
Demarcação já!

Pro índio ter a aplicação do Estatuto
Que linde o seu rincão qual um reduto,
E blinde-­o contra o branco mau e bruto
Que lhe roubou aquilo que era seu,
Tal como aconteceu, do pampa ao Amapá,
Demarcação lá!
Demarcação já!

Já que é assim que certos brancos agem:
Chamando-­os de selvagens, se reagem,
E de não índios, se nem fingem reação
À violência e à violação
De seus direitos, de Humaitá ao Jaraguá;

Demarcação já!
Demarcação já!
Pois índio pode ter iPad, freezer, TV, caminhonete, “voadeira”,
Que nem por isso deixa de ser índio
Nem de querer e ter na sua aldeia
Cuia, canoa, cocar, arco, maracá.

Demarcação já!
Demarcação já!

Pra que o indígena não seja um indigente,
Um alcoólatra, um escravo ou exilado,
Ou acampado à beira duma estrada,
Ou confinado e no final um suicida,
Já velho ou jovem ou – pior – piá.

Demarcação já!
Demarcação já!

Por nós não vermos como natural
A sua morte sociocultural;
Em outros termos, por nos condoermos –
E termos como belo e absoluto
Seu contributo do tupi ao tucupi, do guarani ao guaraná.

Demarcação já!
Demarcação já!

Pois guaranis e makuxis e pataxós
Estão em nós, e somos nós, pois índio é nós;
É quem dentro de nós a gente traz, aliás,
De kaiapós e kaiowás somos xarás,
Xará.

Demarcação já!
Demarcação já!

Pra não perdermos com quem aprender
A comover-­nos ao olhar e ver
As árvores, os pássaros e rios,
A chuva, a rocha, a noite, o sol, a arara
E a flor de maracujá,

Demarcação já!
Demarcação já!

Pelo respeito e pelo direito
À diferença e à diversidade
De cada etnia, cada minoria,
De cada espécie da comunidade
De seres vivos que na Terra ainda há,

Demarcação já!
Demarcação já!

Por um mundo melhor ou, pelo menos,
Algum mundo por vir; por um futuro
Melhor ou, oxalá, algum futuro;
Por eles e por nós, por todo mundo,
Que nessa barca junto todo mundo “tá”,

Demarcação já!
Demarcação já!

Já que depois que o enxame de Ibirapueras
E de Maracanãs de mata for pro chão,
Os yanomami morrerão deveras,
Mas seus xamãs seu povo vingarão,
E sobre a humanidade o céu cairá,

Demarcação já!
Demarcação já!

Já que, por isso, o plano do krenak encerra
Cantar, dançar, pra suspender o céu;
E indígena sem terra é todos sem a Terra,
É toda a civilização ao léu
Ao deus­-dará.

Demarcação já!
Demarcação já!

Sem mais embromação na mesa do Palácio,
Nem mais embaço na gaveta da Justiça,
Nem mais demora nem delonga no processo,
Nem retrocesso nem pendenga no Congresso,
Nem lengalenga, nenhenhém nem blablablá!

Demarcação já!
Demarcação já!
Pra que nas terras finalmente demarcadas,
Ou autodemarcadas pelos índios,
Nem madeireiros, garimpeiros, fazendeiros,
Mandantes nem capangas nem jagunços,
Milícias nem polícias os afrontem.
Vrá!
Demarcação ontem!
Demarcação já!
E deixa o índio, deixa o índio, deixa os índios lá.